História. Dez minutos ou dois gols, a regra que deu origem ao Negritude FC

Da brincadeira nasceu um dos mais tradicionais times de futebol de várzea de São Paulo

Foto: Clarissa Barçante

negritude


Por Anna Virgínia*


Dez minutos ou dois gols”. Para quem joga futebol na rua, a regra é clara. Para quem nunca se aventurou pelos campos de futebol que se formam e se desfazem todos os dias em cada canto do Brasil, eu explico: o cronômetro passou dos 10 minutos ou um dos times marcou mais de um gol, acabou o jogo - o perdedor está fora e o vencedor enfrenta o próximo time da “fila”.

 

Foi em uma dessas filas, nas quais o tempo sempre parece passar mais devagar, que o tradicional time da várzea paulistana, Negritude Futebol Clube, teve seu pontapé inicial.

 

Deu-se em 1980, ano em que a Zona Leste de São Paulo, mais especificamente o bairro Arthur Alvim, recebia a inauguração do conjunto habitacional Padre José de Anchieta, conhecido popularmente como Cohab.

 

Assim, gente chegava de todos os cantos com suas mudanças, sonhos, algumas com uma paixão inexplicável pelo futebol. Cinco garotos recém-chegados no local - José Roberto, Douglas, Álvaro, Osvaldo e Aguinaldo - que tinham entre 18 e 19 anos, encontraram-se na beira de uma quadra de futsal, na qual a bola rolava. A vontade de jogar os uniu e, sem se conheceram, formaram o “time de fora”.

 

Não se sabe o que aconteceu primeiro, se os 10 minutos se passaram, ou se um dos times fez dois gols. O que Douglas, um dos fundadores do clube, não esquece é que, uma vez em quadra, nenhum time os venceu.

 

Nós ficamos lá das nove horas da manhã até quase uma hora da tarde. Ninguém tirava a gente da quadra”, conta com orgulho. Jogar bola juntos no fim de semana virou tradição, o time passou a disputar campeonatos de futebol de salão na Cohab e, com o tempo, migrou para o futebol de campo.

 

Com o sucesso da equipe, precisaram pensar em um nome para disputar campeonatos maiores espalhados pela cidade.

 

Os cincos amigos se reuniram para decidir qual seria o nome da equipe e, como todos eram negros, sabiam de uma coisa: queriam algo que carregasse essa referência. Cogitou-se os nomes Poder Negro e Alvinegro, mas quando um deles levantou a mão e sugeriu que o time fosse batizado como Negritude, nenhum dos jogadores teve dúvida sobre qual nome escolher.

 

Aira Bonfim, que se interessou por estudar a história do clube após pesquisas de campo realizadas durante a fase de implantação do Centro de Referência do Futebol Brasileiro, conta que o nome escolhido não agradou as entidades do esporte no estado, que alegaram que poderia causar “problemas raciais”.

 

Como alternativa, o time foi registrado como Alvinegro Futebol Clube durante os anos de transição democrática. “Fundado em 1980, apenas em 1986 foi permitido o registro e a participação da equipe em campeonatos de maior expressão com o nome original”, ressalta a pesquisadora.

 

José Roberto, fundador, técnico e presidente do Negritude Futebol Clube, diz que não passou pela cabeça de nenhum deles a possibilidade do nome ser barrado. “Ninguém pensou em preconceito, a gente só queria fazer uma homenagem por sermos todos os cinco negros e jovens”. No logo estampado no uniforme do time, deixaram sua marca: “um negão de black power”, como define Douglas.

 

Para jogar no clube, não importa a cor, só o talento. Alexandre, conhecido como Peu, atua no Negritude há 17 anos e é o jogador com mais tempo de casa. Ao comparar o elenco de quando ele começou a jogar com o atual, ele nota uma diferença. “Antigamente tinha bastante negros, era quase a equipe toda. No elenco atual, o time é bem mesclado”.

 

Aira destaca que a diminuição dos jogadores negros no clube é um reflexo da diversidade que compõe a COHAB. Ainda assim, o clube segue a estampar em seus uniformes recentes figuras de personagens da luta dos movimentos negros como Zumbi, líder do Quilombo dos Palmares, e Nelson Mandela, líder sul-africano na luta contra o Apartheid.

 

Zé Roberto só queria jogar bola, ele não imaginava que hoje seria presidente de um dos clubes de várzea mais tradicionais e vencedores de São Paulo.

 

Quando Douglas incentivou que o time participasse da disputa de campeonatos na cidade, não pensou que hoje o Negritude seria responsável por organizar um dos torneios mais conhecidos na várzea: a Copa Negritude, que está na sua 19ª edição e reúne mais de 150 times, divididos em 6 categorias: sub-13, sub-15, sub-17, acima de 40 anos e acima de 50 anos, além da categoria principal. “É a única Copa que eu conheço que tem jogo para pessoas dos 8 aos 80 anos”, conta o presidente da equipe.

 

Quando Zé Roberto e Douglas se mudaram para a Cohab, não imaginavam que 38 anos depois o futebol de várzea estaria tão diferente. “A várzea se profissionalizou e para você manter um time, tem que pagar. Na época a gente entrava em campo por vontade mesmo, para defender a sua quebrada, o local onde você mora, o seu escudo”, lembra Douglas. A paixão dele pelo esporte segue, porém, intacta: “Se eu acordar domingo de manhã e não for para uma beirada de campo, meu dia fica incompleto.”

 

*Publicada na Carta Capital


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